Relato de pa(i)rto 2
Um filho é diferente do outro. Um parto é diferente do outro. Uma gravidez é diferente da outra. Três das cinco frases mais ouvidas por pais de 2ª viagem. As outras são “vocês são loucos” e “parabéns”.
Então vamos lá...
UMA GRAVIDEZ É DIFERENTE DA OUTRA
Realmente a 2ª gravidez foi muito diferente da primeira.
Desde o começo. Até pra Pri fazer xixi no palitinho achamos melhor esperar uma
soneca do André. Descobrimos que ele teria companhia na semana do aniversário
de 1 ano. Não contamos pra ninguém pra não tirar a atenção dele. Pelo menos
mais uns dias sem concorrência.
Deixamos para contar no Natal, quando soltamos o André no
meio da família com a camiseta “Promovido a irmão mais velho”.
Logo nas primeiras semanas começamos a ouvir sobre uma
doença estranha na China. Nada preocupante, pelo menos até então.
Bastaram mais 2 meses para o mundo virar de cabeça pra
baixo. Toda a rotina que montamos para levar e buscar o André na escola, a Pri
voltar a trabalhar e se dedicar por 6 meses a deixar tudo ajeitado no Espaço
Zanic para o 2º período de ausência em 2 anos foi por água abaixo.
#fiqueemcasa, home office e reuniões com participações
especiais de filhos e cachorros viraram o “novo normal”.
Chás de bebê e revelação foram cancelados para evitar
aglomerações. Passeios para comprar roupinhas não teriam destino, pois todas as
lojas estavam fechadas.
O tempo livre que tínhamos para acariciar e conversar com a
barriga, criar playlist de músicas fofas pro parto e curtir a gravidez era todo
ocupado pelo André ou pelo sono que vinha como consequência do cansaço que se
dedicar a uma criança traz. Ainda mais quando essa criança está presa em um
apartamento de 60m².
Resumindo, nós “curtimos” muito mais a gravidez do André do
que a da Laura.
No trabalho, o que começou com empolgação por trabalhar de
casa em pouco tempo se transformou em jornadas de 12h em ritmo acelerado,
sábado igual a dia útil, ligações domingo à noite e gerentes dizendo “ser
feriado é uma coisa, não trabalhar é outra”. Toda essa dedicação foi premiada
com um belo de um facão. Alguns colegas e eu fomos demitidos para sermos
substituídos por pessoas de confiança do novo Diretor. Coisas do mundo
corporativo, mas que mesmo assim magoam. Pelo menos as portas ainda estão
abertas para benchmarking e pra ajudar a resolver as brigas com o convênio.
Como era de se esperar, todo esse stress refletiu na saúde.
A Pri desenvolveu uma hipertensão gestacional. A pressão arterial dela que
sempre foi 11x7 passou para 13, ás vezes 14x10. Sinal de alerta ligado,
consultas com a querida Dra Daniela Menezes toda semana, várias aferições
diárias e a sensação de que “a qualquer momento a Laura chega” desde o 7º mês.
Aliás, no 7º mês aconteceu um alarme falso. Certo dia, a Pri
começou a ter dores que ela disse serem iguais ao começo do processo com o
André. O problema é que no rolo da demissão e transferência do convênio médico
da empresa para o custeado por mim, ficamos uns dias sem plano de saúde por
falha da empresa. Liguei pra uma amiga no RH que acionou meio mundo e garantiu
que eu seria atendido no Hospital (valeu Bia!). Depois ela me disse que ficou
tremendo enquanto eu não avisei que deu tudo certo.
Acionamos nossa babá de emergência (por um acaso minha
sobrinha Emily) e partiu Hospital. Laurinha estava “de boa na lagoa”. Voltamos
pra casa e seguimos a vida em alerta.
Felizmente, pouco tempo depois da minha demissão fui
contratado na Telhanorte. Meus chefes, sabendo que logo eu sairia de licença me
deixaram mais tranquilos nas primeiras semanas. Nesse meio tempo, a pressão da
Pri continuou flertando com o limite aceitável e nossa super equipe médica
achou melhor induzir o parto na 38ª semana. Pelo menos em uma coisa a 2ª
gravidez foi igual a 1ª: a sensação de terminar um dia sem saber se eu iria
trabalhar no outro.
2 ou 3 procedimentos de indução depois, nada da Laura
“acordar”. Como a pressão da Pri subiu mais um pouquinho, a Dani mandou irmos
pro Pronto Socorro preparados para ficar por lá. Por quanto tempo? Só a Laura
sabia.
UM PARTO É DIFERENTE DO OUTRO
Recebemos a orientação de ir ao hospital no início da tarde
da 2ª feira, dia 03 de Agosto. Como também não era aquela urgência toda,
conseguimos nos organizar. Avisamos a mãe da Pri pra ela vir de Caraguatatuba
pra cá, terminei meu expediente, arrumamos as malas, comemos e fomos os 3 (na
verdade 4 né?) pro Sepaco.
Foi muito legal a empolgação do André. Não falamos nada do
tipo “a irmãzinha vai chegar” ou “a vovó tá vindo”, mas como dizem, a criança
sente. Ele se agitou de uma maneira que nunca vimos. Correu pela casa, pulou,
gargalhava. Parece que a Laura, ainda no formato anjinho do céu, foi no ouvido
dele e falou “tô chegando”.
Voltando ao assunto ida ao Sepaco, não quisemos esperar
tanto assim também pra ir. Os pais da Pri só chegariam umas 20h aqui e achamos
melhor eles nos encontrarem lá. A Pri deu entrada no PS e eu fiquei esperando
meus sogros pra entregar o André.
Encontrei minha amada na sala de espera... e que espera.
Consulta, aferição de pressão, cardiotocografia, remédio pra abaixar a pressão,
papelada pra internação, cafezinho, postagem no Insta, mensagem pra saber se o
André tinha dormido, Jornal da Globo e nada de irmos pro quarto.
Felizmente, nos meus tempos de trabalho + faculdade + Tiro
de Guerra desenvolvi a habilidade de dormir em praticamente qualquer lugar.
Sentei no chão ao lado da Pri e tirei um cochilinho devidamente flagrado pela
minha digníssima esposa.
Lá pelas 2h da madrugada nos levaram para um quarto (ufa!).
Mas dormir com dignidade é quase impossível em uma maternidade. Acho que pros
pais já se acostumarem com a privação de sono das primeiras semanas com um
bebê.
Visita da enfermeira do hospital, da enfermeira da equipe do
Coletivo Nascer, da médica do hospital, da médica do Coletivo, da copeira, do
capelão, do estagiário, da menor aprendiz, da imprensa... ops, me empolguei.
De qualquer forma, era umas 4h da manhã quando a Pri fez um
novo procedimento para indução do parto. Novo cardiotoco (tem que fazer antes e
depois do procedimento) e finalmente nos deixaram descansar um pouco. Bem pouco.
7h teve a toca de turno e lá vem a equipe aferir pressão, medir temperatura e
etc.
Nenhum sinal de Laura logo cedo, então aproveitamos para
descansar um pouco mais. Lá pelas 11h era hora de fazer o procedimento de novo.
A Silvia, enfermeira (ou obstetriz?) do Dream Team do Parto Humanizado (também
conhecido por Coletivo Nascer) apareceu pra fazer o cardiotoco, o qual mostrou
que a Laura estava dormindo.
O cardiotoco é feito em um aparelho que parece um
sismógrafo, registrando os batimentos cardíacos e movimentações do bebê e as
contrações da mãe. A linha dos batimentos e contrações estavam normais. Já os movimentos
da Laura estavam mais parados do que carro na Marginal em dia de chuva.
Precisamos dar uma animada na garota pra repetir o exame. Tudo
certo dessa vez e bora fazer o procedimento. Lembro perfeitamente que era 12h30
quando a Pri começou a sentir dores. Eu estava almoçando e lendo uma mensagem
do meu diretor na empresa que dizia “esqueça da gente”. Não deu tempo de
responder.
Dali em diante as coisas foram muito rápidas. Avisamos a
doula pra vir pro hospital. A ginecologista do Coletivo Nascer já estava por lá,
bem como a pediatra o Coletivo Aurora. O anestesista só seria acionado depois
que a Pri dissesse “esternocleidomastóideo”. Se você não entendeu, leia o
relato de pairto do André.
E se você só vai ler o relato do André depois, deixa eu
fazer duas explicações/propagandas rápidas.
Coletivo Nascer é uma equipe médica que preza pelo parto
humanizado. Humanizado mesmo! Não o que dizem ser humanizado nos Hospitais. Foco
total na mãe e no bebê a ponto delas sentarem no chão e servirem de ponto de
apoio para a mãe se segurar. Lideradas pela Ana Cris Duarte, referência no
assunto no Brasil, médicas e enfermeiras trabalham em regime de plantão para
atender uns 50 partos por mês a valores justos. É um trabalho maravilhoso que
recomendo de olhos fechados.
Coletivo Aurora é o equivalente do Coletivo Nascer para
pediatras. Lideradas (eu acho) pela Thais Tubero, a fofíssima e mega atenciosa pediatra
do André e da Laura. Mais uma que senta no chão para fazer a consulta e brincar
com os pacientes enquanto sabatina e tranquiliza os pais. Começo a pensar que
bons profissionais de saúde são aqueles que, se necessário, sentam no chão com
seus pacientes.
Voltando ao parto, como a doula Gabi Gavioli ficou presa na
burocracia do hospital, tive que ser maridoulo. Fiquei por muito tempo jogando
água quente e massageando a lombar da Pri. Palavras de incentivo e carinho no
ouvido também fizeram parte do repertório.
A Silvia tratou de falar algumas verdades pra gravidinha
parar de se desesperar e providenciou nossa remoção para a sala de parto.
Antes de ir pra sala, tive que me trocar e aproveitei para
mandar uma foto pra minha amiga Karla. Fiz isso no parto do André porque
precisava compartilhar aquele momento com alguém. Se o fizesse com alguém da família,
o celular não ia parar de tocar, então escolhi uma amiga discreta J (beijos Karlinha!).
Como deu sorte na 1ª vez, por que não fazer na 2ª, não é mesmo?
Chegando na sala, constatamos que ela era um pouco pequena
para a quantidade de pessoas que precisa ficar lá: mãe, pai, enfermeira da
equipe, enfermeira do hospital, ginecologista, doula, pediatra, anestesista.
Por isso, quando precisávamos revezar quem ficava com a Pri tínhamos que nos
espremer no corredor entre a maca e o banheiro.
Falando em banheiro, quando cheguei a enfermeira do hospital
me disse para “tomar cuidado para não me molhar”. PQP! Minha esposa parindo,
urrando de dor e eu ia me importar de molhar a bunda?
Depois descobri que a mesma pessoa queria convencer a Pri a
ficar deitada na maca quando ela chegou lá. Impressionante a falta de empatia
de boa parte das profissionais dos hospitais.
Por sorte a Pri, que já é meio rebelde, estava no modo Fod@-se
e fez o que ela achou que devia fazer. No caso, correr pro chuveiro.
“Quero anestesia” era o que ela mais falava. Até chamamos o
anestesista do Coletivo, mas a percepção de tempo para uma grávida é bem
diferente do resto do mundo. Por isso, fomos acusados mais de uma vez de estar
enganando a pobre e indefesa parturiente. Em dado momento a Pri falou a palavra
mágica de forma tão convincente e me olhando com seus belos olhos azuis tão
arregalados que tive certeza que a Laura não ficaria muito mais tempo lá
dentro.
Nesse meio tempo, a doula conseguiu entrar e assumiu seu
posto. Continuei ali junto, mas já não precisa mais mostrar meus dotes de massoterapeuta.
Dei uma saidinha do banheiro para tomar uma água e na volta
fiquei um pouco afastado. Rapidamente a Silvia (ou foi a Gabi?) tratou de me
chamar: Fica ali que já vai nascer.
Como assim? Eram 15h ainda. Tudo bem, 2º parto é mais
rápido, estava evoluindo bem, mas não deu tempo nem de bater um papo com a
equipe. O parto do André levou mais de 10h a partir de quando fomos pra sala e quase
24h desde os primeiros sinais. Deu tempo de tomar lanche no Conforto Médico, jantar
com a equipe e até descobrir que o Anestesita era marido da Dani e tinha um
filho de 6 meses (abraços Rafa!).
Falando em anestesista, mais ou menos nessa hora ele chegou.
Era o Fabio, se não me engano o mesmo que aplicou a primeira anestesia no parto
do André. Tarde demais. A Laura já estava logo ali. Deu pra ver que ele ficou
um pouco decepcionado em não participar da festa. Mas anestesista atrasado (ou
bebê adiantado?) não é algo incomum. Imagino que devem sofrer com as piadas no
happy hours e festas de fim de ano.
Quando o André nasceu, eu estava atrás da Pri, abraçando e
servindo de apoio pra ela. Em nossas conversas iniciais com as doulas (a outra
era a Tais Olardi, elas trabalham se revezando) fui questionado se eu queria
pegar a Laura “logo na saída”. Nunca tinha pensado nessa hipótese. Só o fato de
estar ali o tempo todo, sentindo e vivendo tudo o que se passava já era tão
emocionante que não ter sido o 1º a pegar o André nunca foi algo que passou
pela minha cabeça.
Enfim, respondi que seria ótimo pegá-la. Não fazer isso
estaria longe de ser um trauma. O importante era estar lá. Na frente, atrás, de
mãos dadas... isso era indiferente.
Sabendo da minha resposta, a Gabi me colocou “na cara do gol”
e fiquei com as mãos a postos para pegar o pacotinho. Alguém ficou ali com as
mãos embaixo das minhas só por garantia.
E foi assim, mais um empurrão e a cabeça saiu, no 2º passaram
os ombros e o 3º foi só pra terminar o serviço. Recebi aquela coisa pequena
(dessa vez pequena mesmo, porque o André já nasceu grandão) mais linda que já
vi. Passei para a Silvia que a passou por baixo da perna da Pri e a entregou
para ela. Sentei no chão (e molhei a bunda para desespero da enfermeira do
hospital), abracei a Pri e curtimos ali por alguns instantes.
Injeção na perna da mamãe fresca, ajuda pra ela levantar e
andar até a maca. Procedimentos de rotina feitos pela Lara (gineco) e Dandara
(neonato) e ficamos ali na golden hour com o cordão ainda ligando mãe e bebê
por mais algum tempo.
Novamente fui requisitado para cortar o cordão, só que dessa
vez com uma tesoura. Ou seja, não tive a oportunidade de dizer “ten blade” como
no Grey’s Anatomy. Juro que me lembrei e quase falei, mas seria totalmente fora
de contexto então não disse nada.
Fotinhos aqui e ali. Família e amigos avisados e voltamos
pro quarto a tempo do jantar. Parto a jato, com a Pri se recuperando muuuuito
mais rápido do que na 1ª vez.
Na manhã seguinte a Dani (por coincidência igual no parto do André) examinou a Pri e a Tiacuã (espero ter escrito certo) examinou a Laura. 24 horas depois do parto já estávamos a caminho de casa.
O cara de pau do André passou 2 dias com a vovó e nem
perguntou por nós. Mas bem que ele adorou o presente que a Laura trouxe pra
ele. E fofo como é soltou um “a bebê!” quando viu a irmã pela primeira vez.
UM FILHO É DIFERENTE DO OUTRO
Bem, essa parte ainda estamos descobrindo. A Laura era mais
calma que o André nos primeiros dias. Fruto principalmente da maior experiência
da Pri com a amamentação.
Também somos menos preocupados com as neuras comuns em pais
de primeira viagem. Uma das principais e que mais ajudam a ter preciosos
minutos adicionais de sono é a não necessidade de arrotar depois de cada
mamada. Orientação da pediatra, que fique claro.
A menina se distrai mais que o irmão na mesma idade. Ok, não
é fácil se concentrar no tetê com um menino pulando pra todo lado e falando
pelos cotovelos na sua orelha.
Ela também demora um pouco mais para dormir do que ele. Mesmo
à noite, depois que o André já foi pra cama, ela ainda fica uma ou duas hora
acordada. Hoje foi um dia mais tranquilo. Bati o recorde residencial e coloquei
cada um em sua respectiva cama em menos de meia hora. Até por isso deu tempo de
escrever a metade que faltava do relato hoje.
Eles dormem no mesmo quarto desde que a Laura fez 2 meses.
Ela ainda acorda todas as noites para mamar. Quase sempre eu saio correndo tão
logo a escuto para evitar que acorde o André.
O André tem seus momentos de ciúmes, mas é impressionante o
carinho e preocupação que tem com ela. Se ela resmunga ele diz “bebê chorou” e
corre até ela. Se deixamos ela com alguém que não é familiar pra ele, uma tia que
não vemos tanto ou enfermeira no posto de saúde, ele não tira os olhos da irmã.
Sempre que pedimos, ele dá um beijo nela.
Já a Laura também está sempre olhando admirada para o irmão.
Aprendendo como viver e aproveitar esse mundo novo pra ela. Ela também vive
rindo pra ele. Tudo indica que serão irmãos muito próximos e carinhosos.
Estamos nos esforçando pra isso.
Não vou dizer que é mais fácil com ela do que com ele.
Apenas afirmo que estamos mais confiantes. E cansados. Antes os adultos eram
maioria e um podia descansar enquanto o outro ficava com o bebê. Agora “cada um
pega um” e descanso só quando eles dormem ao mesmo tempo. Mas também é a hora
em que podemos nos dedicar a atividades mais particulares de cada um. Nesse
momento (0h45 do dia 02 para 03/12) a Pri está melhorando suas redes sociais e
eu aqui, escrevendo pra vocês.
Gravidez, parto, filho... todos diferentes um do outro. Mas a
emoção e alegria de viver cada um desses momentos é exatamente igual.
Obrigado pelo carinho conosco em ler até aqui
Um grande abraço
Fê, Pri, André e Laura









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