Eu me tornei aquele pai
Um dia desses, como faço todas as noites junto com a Pri
antes de dormir, passei no quarto do André “só pra ver como ele estava”. Ele
estava dormindo como um bebê. O que não me impediu de puxar um pouco o cobertor.
Nos poucos passos que separam o berço dele da minha cama, eu
me dei conta que tinha me tornado um pai que nunca imaginei que seria. Explico:
Sou o filho caçula 14 anos mais novo que meu irmão Sandro.
Sou o neto caçula do lado do meu pai e, por empate técnico com meu primo
Renato, também do lado da minha mãe. Como a Pri me disse certa vez, fui
acostumado a vida inteira a receber mais atenção do que dar. Definitivamente,
isso não é um indicativo de que seria alguém muito atencioso com um filho.
Tenho vários sobrinhos, o que talvez me permitisse usar o
argumento de que “ajudei a cuidar de muitas crianças”. Mas meu nível de ajuda
sempre foi mais em atividades como correr atrás da bola ou explicar as regras
de algum jogo de tabuleiro. Ou seja, nunca ajudei a cuidar de ninguém. No
máximo os distraía enquanto me divertia.
Além disso, depois de adulto, nunca fui o tio que sentava no
chão pra brincar com os pequenos. E quando alguém começava uma frase com “Nós
que somos pais...” eu já nem ouvia o resto. Eu não era pai, o que ele dizia não
se aplicava a mim.
Some todos esses parágrafos e você provavelmente vai chegar
à mesma conclusão que eu: daqui não sai “aquele pai”.
Mas como muitos me disseram, um filho muda tudo. E com o
André, eu me tornei “aquele pai”...
Aquele pai que ficou conferindo as instruções do teste de
gravidez pra ter certeza que não tinha se confundido.
Aquele pai que conversou com a barriga da esposa grávida,
chorou no ultrassom, adorava as consultas coletivas de pré-natal e fala mais
que a mãe nas consultas com a pediatra.
Aquele pai que cortou caminho pra maternidade pelo meio do
posto de gasolina e xingou o manobrista do hospital que não pegava logo meu
carro.
Aquele pai que explicava pra um bebê de alguns dias que é de
noite e todo mundo precisava dormir.
Aquele pai que deitava no chão aos pés da esposa enquanto
ela dava de mamar de madrugada. Falava que era pra descansar um pouco mais e
pra ela poder me chamar sem fazer barulho, mas também pra ter certeza que ela
não dormiria com a criança no peito.
Aquele pai que troca fraldas, dá banho no chuveiro, veste as
roupinhas e dá comida pro pequeno com uma naturalidade que parece ter feito
isso a vida toda.
Aquele pai que queria chorar tanto quanto a mãe na primeira
febre do filho, mas que se manteve firme pra não desesperá-la mais ainda.
Aquele pai que deixa o filho arranhar as orelhas porque sabe
que é a estabanada forma dele mostrar carinho.
Aquele pai que dá mamadeira às 3h da manhã e agradece a Deus
por isso.
Aquele pai que compra uma roupa que o filho não precisa só
porque é do Super Homem.
Aquele pai que deseja uma noite de sono sem interrupções,
mas que fica preocupado se o alarme do celular toca às 6h30 e o filho não
acordou de madrugada (e que está achando estranho escrever esse texto por uma
hora e o André ainda estar dormindo mesmo sendo quase 10 da manhã).
Aquele pai que agora entende que é possível passar um dia
com uma criança sem a mãe por perto. E que isso é tão divertido quanto
cansativo.
Aquele pai que escutou um “Nós que somos pais...” e já
estava ignorando o resto da frase quando se deu conta que agora aquilo era
sobre ele também.
Aquele pai que chega do trabalho, larga a mochila na porta e
senta no chão de sapato e camisa pra receber o abraço de um serzinho rastejante
que abre os braços e um sorriso banguela quando me vê.
Aquele pai que carrega o filho de cavalinho por alguns
minutos, fica com dor no pescoço o resto da semana e se pergunta como o pai dele
fez isso da Barra Funda até o Pacaembu.
Aquele pai que está ansioso pra ensinar o filho a jogar
bola, futebol de botão, o hino do Corinthians, os jogos de tabuleiro que a
família toda adora. Se bem que nesse último ponto eu acho que é pra ter uma boa
desculpa pra deixar a Pri sozinha nas reuniões de família e poder jogar com os
jovens também rsrsrsrs.
Aquele pai que se sente o máximo quando alguém fala que o
filho dele é lindo ou “Nossa! Que olhão azul!”.
Aquele pai que dá risada quando percebe que vive a letra
daquela música do Zé Neto & Cristiano que diz “Tem brinquedo espalhado pela
casa toda” e “Na mesa tem dois copos e uma mamadeira”.
Aquele pai que chorou escrevendo isso.
Aquele pai que toda noite, antes de ir dormir, passa no
quarto do filho e puxa um pouquinho o cobertor.
PS: 10h02 – O André acabou de acordar. Parece que fez
questão de esperar eu terminar o texto.

Texto lindo!!!! Mas não me tocou só pela beleza, mas me emocionou pela VERDADE!!!! Vc é a Pri estão de parabéns..... um beijo enorme!
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