O que seu chaveiro diz sobre você?
Acho incrível como coisas simples me trazem inspiração para
escrever. Um sapato engraxado rendeu uma história de aprendizado de pai pra
filho, um livro novo me fez lembrar de como aprendi a gostar de ler e agora um
chaveiro me fez lembrar de um antigo professor que transmitiu seu carinho por
meu irmão para mim.
Dias atrás, não sei bem o porquê, olhei com mais atenção
para o meu chaveiro. Esse pequeno disco metálico foi cunhado há mais de 30 anos
e é meu chaveiro há quase 20. Ele representa um dos meus maiores orgulhos
profissionais: ter feito SENAI na Volkswagen.
Certa vez, no início dos anos 2000 resolvi arrumar a gaveta
do meu criado mudo. Segundo minha tia Elza, ele está na família da minha avó
desde a década de 1930. Não sei porque foi parar na casa dos meus pais e serviu
de ponto de apoio no quarto dos meus irmãos até que “herdei” essa relíquia.
Carreguei ele comigo por todas as mudanças que fiz. Faço questão de que fique
do meu lado da cama até hoje.
Como vocês devem imaginar, havia coisas do arco da velha lá
dentro. Entre elas, um oxidado chaveiro com o nome do meu irmão Sandro e as
inscrições CFP SENAI VW. Mostrei pro Sandro e ele me pediu que polisse o
chaveiro e mostrasse pro Prof. Zezo.
O Mestre Zezo foi professor do meu irmão quando ele fez
SENAI entre 1986 e 1988. Eu tinha apenas 4 meses quando o Sandro (na época, Sandrinho)
começou a trabalhar. Ele foi um dos melhores alunos da sua época. Tanto que no
meu 1o dia de aula/trabalho, o Zezo me deu um baita susto batendo nas minhas
costas e perguntando:
- Você é o irmão do Sandro?
- Sim.
- Se você for metade do aluno que ele foi já será muito bom.
Nada como um pouco de pressão no 1º dia de trabalho, não é
mesmo?
Demorou alguns meses para eu ter aula com ele, mas como sua filha,
a Ana Paula, era da minha turma e me dei muito bem com ela, não deve ter sido difícil
para ele gostar de mim. Ser nerd e estar sempre quietinho, na minha, deve ter
ajudado um pouco hehehe.
Alguns colegas meus não caiam de amores pelo professor. Famoso
por “brotar” do nada, flagrou muitos de nós aprontado alguma. Estivéssemos na
sala ao lado da dele ou na longínqua Ala XIII, ele sempre aparecia. Entre outras
matérias, ele lecionava Pneumática. Nossa teoria era de que ele viajava pelos
dutos de ar comprimido da empresa. Ele não era do tipo “amigão”, que deixava a
gente fazer o que quiser. Pelo contrário, era sempre ele quem dava os sermões
na turma. Mas meu irmão logo me alertou:
- Preste atenção no que o Zezo fala. Talvez você não entenda
agora, mas no futuro vai ver que ele tinha razão.
Segui seu conselho à risca. O que se mostrou de muito valor
até hoje.
De volta ao chaveiro… Chegando na Escolinha depois de achar
a relíquia, fui com ela até a politriz e comecei o trabalho. Não consegui um
resultado muito satisfatório, mas fui mostrar o objeto para o Zezo.
Ele olhou aquilo, abriu um sorriso e falou para eu acompanha-lo.
Pegou um paninho jogou um produto químico e começou a esfregar. Em pouco tempo o
chaveiro brilhava como novo.
- Fico muito feliz em saber que o Sandro ainda tem esse
chaveiro.
Pediu para eu seguir com ele até sua sala. Lá, abriu um
armário e tirou de dentro de uma caixa mais 2 chaveiros iguais. Em um gravou
meu nome e tipo sanguíneo. Em outro, fez o mesmo para eu dar pro meu pai.
Fiquei muito feliz e orgulhoso de receber um presente dele.
Por isso faço questão de usá-lo até hoje.
No dia em que prestei atenção nesse objeto que carrego
comigo todos os dias há tempo, fui trabalhar pensando no quanto aquilo
significava pra mim. E daí veio a inspiração para esse texto. Acho que o
chaveiro que você usa diz muito sobre você. Ninguém carrega algo pra todo lado
sem que aquilo transmita uma mensagem sobre você… mesmo que de forma subjetiva.
A Pri tem um chaveiro com a Torre Eiffel e o Castelo de Neuschwanstein
(como escrever isso sem o Google?!). Pra mim, ele mostra o quanto ela gosta de
viajar e como nossa viagem pra Europa foi significativa pra ela.
O significado do meu chaveiro é uma série de coisas: um
presente que recebi de alguém muito importante. Um elo de ligação com meu
irmão. O lugar onde minha carreira começou e que me serve de base até hoje. Uma
lembrança de ouvir os mais velhos. A certeza de que cuidar do que tem valor pra
gente nos mantém conectados com pessoas importantes na nossa vida.
O SENAI foi muito importante por vários motivos. Com ele
pude ter o meu próprio dinheiro e dar uma ajudinha em casa pouco depois do meu
pai parar de trabalhar. Lá, entrei muito jovem na rotina de uma empresa: pegar
ônibus, respeitar os chefes, ser proativo. Alguns dizem que “perdi” parte da
minha adolescência… mas lá também vivi parte dela. Saía com os amigos, tomei
meu primeiro fora, tive minha primeira paquera. Conheci professores e colegas
sensacionais.
No dia da minha formatura, perguntei pro Zezo se ele
lembrava o que tinha me dito no 1º dia de aula. Ele disse que não.
- Você disse que se eu fosse metade do que meu irmão foi, eu
seria um grande aluno. Consegui?
- Você foi igual ele…
Abri um sorriso de orelha a orelha.
Mais de 10 anos depois, andando de carro com a Pri, vi essa
pessoa inesquecível numa esquina perto do SENAI de Santo André. Estacionei e
saí correndo para abraça-lo. A Pri não entendeu nada. Acho que retribuí o susto
que ele me deu. Mas sei que ele gostou, pois meu irmão diz que sempre que se
encontram, ele se lembra disso e fala o quanto nossa família é especial.
Saudades daquela época, do Zezo, da Ana Paula e de toda “molecada”.
Em especial do Pastel, do Chicão, do Varzé, do Carlos e da Vanessa Calarezo.
Era quase impossível não ter apelido, como vocês podem perceber.
Gratidão por ter vivido essa época e por ter sempre nas mãos
algo que me permita lembrar de tudo isso.
Gratidão a você por ter lido mais esse texto. E aí, o que
seu chaveiro diz sobre você?
Aquele abraço!



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