Relato de pa(i)rto


Ao entrar na partolândia, esse mundo repleto de fraldas, carrinhos e itens de decoração infantil que ninguém fora dele imagina que exista, comecei a seguir alguns profissionais relacionados a gravidez, parto e pediatria. Com isso, todo dia me deparo com lindos relatos das mães. Mas acho que nunca li o relato de um pai. Apesar de sermos meros coadjuvantes nessa obra, gostaria de saber o que se passou na cabeça dos papais nesse momento quando todos os olhos estão para as mulheres e suas crias. Assim, aqui vai o meu relato de pa(i)rto:




Como muitos já sabem, o André nasceu domingo, dia 16 de dezembro. Mas para melhor contextualizar, meu relato começa no domingo anterior, dia 9. Dois dias antes da gravidez completar as 40 semanas.

Acordei por volta das 9h, com a Pri saindo do quarto. Fiz menção de me levantar, mas um pensamento me fez ficar na cama: “Pode ser a última vez em alguns anos que poderei dormir até a hora que bem entender”. Dormi até as 11h. Até o momento, meu pensamento se mostrou verdadeiro.

Ao chegar no trabalho na 2ª feira, o que mais ouvi foi:
- Você por aqui?
- Achei que já não vinha mais.
- Quando vai ser?

Minhas respostas variavam, mas a mensagem sempre era:
- Vai ser quando ele quiser nascer.

A semana passou tranquila, mas cada vez que meu celular tocava, todos a minha volta arregalavam os olhos esperando pela notícia. Parecia que estavam mais ansiosos que eu. Comecei a me divertir com isso e quando a Pri me ligava, eu mostrava o celular pra quem estivesse comigo. Todos prendiam a respiração e me mandavam atender logo. A Pri perguntou diversas vezes por que eu atendia o telefone rindo.

Também era engraçado quando minha Diretora me pedia alguma tarefa:
- Preciso que você faça isso hoje, porque não sei se você virá amanhã.

A 6ª feira, dia 14, foi um pouco diferente. Resolvi várias pendências, conversei individualmente com as pessoas da minha equipe, deixei vários assuntos direcionados e fiz uma entrega importante no fim do dia. Conforme terminavam seus expedientes, meus colegas se despediam de mim de forma diferente da que costumam fazer, como se já soubessem que eu não voltaria tão cedo pra lá. Terminei o dia com a sensação de dever cumprido, fui embora caminhando, pensando e agradecendo a Deus pelo momento especial que vivo pessoal e profissionalmente.

Ao chegar em casa, a Pri me disse que sentiu algumas contrações no fim da tarde. Uma a cada meia hora, mas que já tinham parado. Podia ser um sinal, ou podiam ser apenas os pródromos (contrações de treinamento). Jantamos, assistimos TV e fomos dormir um pouco mais cedo que o habitual.

Já no sábado, dia 15, às 3h00, acordo com a Pri indo ao banheiro... nada diferente das últimas 40 semanas. Às 3h30 ela levantou de novo e, do banheiro, reclamou de dor. Levantei para ajudá-la, mas senti um mal-estar. Deitei novamente, respirei fundo e tive a certeza de que era o dia.

Até as 5h30 da manhã, a cada meia hora foi assim: Pri vai ao banheiro, volta reclamando de dor e dorme. A partir dessa hora, não teve mais sono. A cada 10 minutos uma contração. Decidimos que era hora de avisar nossa doula, Larissa Leal. Enviamos um whatsapp e tentamos descansar. Sem chances... lá pelas 7h a Pri perdeu o tampão. As dores continuavam intensas. Decidimos ligar pra doula. Profissional e cheia de energia que é, nos atendeu rapidinho e perguntou sobre o tempo das contrações.

- A cada 10 minutos com duração de 2 minutos e meio.

Ela disse que provavelmente estava errado. Foi quando percebemos que a Pri não conseguia distinguir as contrações da dor, o que bagunçava nossa marcação no aplicativo.
Ela nos recomendou descansar e comer. Eu juro que tentávamos, mas a Pri não conseguia. Tudo o que ela dizia era:

- Me leva por hospital, eu não aguento mais. Desculpa amor, mas eu quero cesárea pra acabar logo com a dor.

Tadinha, passando por tudo aquilo e ainda preocupada por ter feito toda uma preparação para parto normal e estar mudando de opinião. Eu entendi que o que ela queria mesmo era acabar logo com aquilo. Enviei mensagem pra equipe que escolhemos para fazer o parto. A saber, o Coletivo Nascer. Recomendo 1000% essa maravilhosa equipe. Juro que escrevo um outro texto sobre os detalhes do sensacional atendimento que tivemos. A recomendação foi a mesma da doula:

- Comam e durmam.

Tentei acalmá-la e ajudar como pude. Dei café com leite e bolachinha pra ela, fiz massagem, abanei uma toalha pra aliviar o calor. O dia estava lindo, sem nuvens... do jeitinho que ela escreveu como desejava que fosse.


De tempos em tempos ela ia ao banheiro. Vomitou, socou a parede, ficou muito tempo debaixo do chuveiro... mas nada diminuía a dor. Ela só repetia:
- Me leva pro hospital. Eu quero cesárea.

Aqui cabem dois comentários:
1)Minha explicação rápida sobre o que é uma doula: “alguém que ajuda a mulher na hora do parto pra ela não desistir de fazer parto normal”
2)Ir pro hospital é uma faca de dois gumes. Se a dilatação for de 5 cm, ótimo... interna e vai pra sala de parto. Se não, volta pra casa. Com um porém, o hospital que escolhemos foi o São Luiz do Itaim, a 1h de distância de casa. Ou seja, não podíamos errar a hora de sair de casa.

Já era mais de 10h. Com as frases repetidas da Pri e os comentários acima na minha cabeça, liguei para a doula de novo. Precisava de alguém que soubesse como convencê-la a ficar mais tempo em casa e, se possível, não deixar que ela desistisse do parto normal. Não pelo custo maior ou pelo “desperdício” de tempo e dinheiro investido na preparação para ser normal, mas porque eu sabia que seu desejo e o melhor para o bebê era que o parto fosse o mais natural possível.
A Lari conversou com a Pri e entendeu que era hora dela vir pra casa.
- Se ela pediu pra ir pro hospital, melhor irmos... uma mulher parindo é bem sensitiva sobre ‘a hora’.

Nova recomendação:
- Ponha as malas no carro.

Não pude sair de perto da Pri, mas como as malas já estavam arrumadas, deixei tudo perto da porta.

Lá pelas 11h ela chegou. Conversou conosco, tentou dar comida pra Pri, fez massagem e me falou pra “arrumar o carro”. Desci e obedeci... quando voltei, a Pri estava trocada e com mais controle.
- Foi só colocar esse vestido lindo que ela já melhorou.

Parece que ficaríamos mais um tempo em casa.

A essa altura você deve estar se perguntando: mas e você? Como estava lidando com tudo isso?
Bem, eu tentei me manter tranquilo e raciocinar. Lembrar de tudo que lemos e ouvimos nos cursos que fizemos. O que fazer pra acalmá-la, o que dar pra ela comer, o que levar pro hospital, quem avisar e que hora. Acho que me sai bem nisso, apesar do desespero de ver a mulher que amo se contorcer de dor, não poder fazer nada e ainda ter que convencê-la a aguentar firme e ficar em casa. Lembrei até de carregar os celulares... o meu, o da Pri e o da doula.

Voltando ao que interessa, ficamos mais uma hora em casa. Por volta das 12h30, a Lari, que assumiu a comunicação com a equipe do Coletivo, entendeu que era hora de partirmos. A Dra. Carolina e a Enf. Obstetriz Paula já estavam no hospital. Pendrive com a playlist do André na mão, destino no Waze, caminho meio maluco, mas vamos embora... não era hora de tentar ser mais inteligente que a intenet.

As cenas a seguir devem ter sido cômicas pra que estava do lado de fora: banco do passageiro inclinado pra frente e grudado no painel. No banco de trás, uma mulher ora de quatro, ora agarrada num travesseiro, ora agarrada no banco do passageiro. Ao seu lado, outra mulher com um leque, dando aromas diversos pra ela cheirar e tentando fazer massagem na lombar. Tudo para aliviar as dores.

Quando já nos aproximávamos do nosso destino, aconteceu algo mágico. Durante a gravidez, todas as noites colocávamos uma música “pro André ouvir” enquanto eu fazia carinho na barriga da Pri. Uma das nossas favoritas era “Mulher Maravilha” do Zé Neto & Cristiano. Se você não conhece, escute... se tiver filho(a), tente não chorar. Pois bem, a música começou a tocar e a Pri apoiou a cabeça em meu ombro. É claro que eu chorei... mas tive que me recompor logo, pra terminar a viagem em segurança.


Chegando no hospital, lá pelas 13h15, deixei a Pri e a Lari na porta e fui estacionar o carro. Cheguei na recepção e cadê elas? Fui pra um lado, pra outro e nada. Liguei pra doula e ela veio me buscar.

Enquanto esperávamos a obstetra do Coletivo, a Pri fazia um cardiotoco, eu ganhei uma pulseirinha e respondi um questionário que não serviu pra nada, porque ela própria teve que responder às mesmas perguntas 15 minutos depois... vai entender.

Não sabe o que é cardiotoco? Bem, na verdade é cardiotocografia, um exame que monitora os batimentos cardíacos do bebê e também as contrações. Serve para ver se as alterações nos batimentos durante as contrações indicam algum possível problema com o bebê.

A simpática Dra Carolina chegou, conversou calmamente conosco e fez o exame de toque: 6cm e colo do útero médio. Ufa! Primeiro teste OK. Internação confirmada.

Tudo certo no cardiotoco, a Pri foi para a sala de parto e eu e a doula fomos nos trocar. Com sua experiência, a Lari me disse o que deixar no armário, o que levar na mochila e o principal: siga a linha colorida e vai pra sala. Chego na sala e lá está a Pri debaixo do chuveiro com a animada e prestativa Enfermeira Paula de olho.

Era aquela sala bonita que eles mostram na visita, com banheira, estrelinhas no teto e com tantos aparelhos que parece uma academia? Não, as únicas 2 salas dessas estavam ocupadas. Era uma sala simples, com maca e um certo espaço. Porta para banheiro com chuveiro e só. O banquinho e a bola foram emprestados de algum lugar.

Decepção número 1 do dia:  o chuveiro estava quebrado e não tinha água fria... a coitada da Pri já estava com as costas vermelhas quando percebemos que só saía água quente da ducha. A Paula avisou a equipe do hospital... 15 minutos, 20 minutos nada. Eu cobrei a equipe de novo e veio uma enfermeira mexer... nada que eu, a Lari e a Paula já não tivéssemos feito.
- Vou chamar a manutenção – foi o máximo que ela evoluiu

Decepção número 2 do dia: vamos pelo menos deixar a Pri sentada? Não... a banqueta do chuveiro estava mal higienizada. Mais alguns minutos e nada. Fui até as enfermeiras do hospital e de forma um pouco veemente perguntei:
- Vão arrumar esse chuveiro ou dar logo uma outra sala pra gente?!
- Estamos higienizando outra sala e transferimos ela pra lá.
- Espero que higienizem direito porque a que estamos está suja.

O rapaz da manutenção chegou quando já estávamos de saída da sala.

Na nova sala, com água quente e fria e aroma de lavanda (cortesia Larissa Leal e seu difusor), novo exame de toque... 8cm e colo fino. Ótimo! Nesse ritmo isso acaba logo e a Pri para de sentir dor.
- A bolsa ainda está íntegra... ops, estourou - Melhor ainda!
A médica cochichou com a enfermeira:
- Me pediram pra ajudar em uma cesárea, mas não sei se vai dar pra esperar uma hora aqui. - Perfeito! Só mais uma hora... eram 14h30, seria sensacional!!!

Na sala ao lado estava outra paciente do Coletivo, que havíamos conhecido nas consultas coletivas. A mulher estava lá há cerca de 20h! Entre os mantras de ioga repetidos por ela e os gritos de dor da Pri, lembrei da importância dela se alimentar. Tentei fazê-la comer de tudo: chocolate, o almoço que recebemos do hospital, suco... mas ela não aceitava nada.

A enfermeira colocou o sonar para ouvir os batimentos do bebê... pelo que tinha lido, ele devia estar entre 100 e 160. Toda vez que o aparelho chegava perto eu fixava os olhos na tela. 140. Muito bom! Novo exame de toque.

Aqui cabe um comentário sobre o exame de toque. Utilidade pública e também pra aumentar o suspense kkkkk. Trata-se de um exame bastante constrangedor e desconfortável. Imagine só a mulher lá, tendo dores fortíssimas a cada 5 minutos e chega alguém para colocar 2 dedos lá dentro. É um dos maiores motivos de reclamação das parturientes e relatos de violência obstétrica. Novamente aqui, só elogios para a equipe do Coletivo Nascer. Todas as vezes que fizeram o exame informaram que o fariam, pediam licença e esperavam a contração terminar para iniciar o procedimento e o faziam com muito cuidado.

De volta aos números. A expectativa estava alta. Se o ritmo continuasse, a dilatação seria máxima (10 cm, se não me engano) ou muito perto disso. Qual foi o resultado? 8 cm de novo :( 
Isso preocupou muito a Pri.
- Não teve evolução. Eu não aguento mais -  e por aí vai.

Tentamos acalmá-la, dizer que o exame é subjetivo, que na vez anterior tinha sido a Paula e agora a Carolina, mas não teve muito efeito.

A Lari (a quem também só tenho elogios) sugeriu mudarmos de estratégia. De tentar tranquilizá-la para motivá-la.
- OK, agora chega! Vamos lá, todo mundo: Vem André! Desocupa André!

A Pri entrou na onda e se distraiu por uns 5 minutos. Mas ela estava muito cansada e pediu para deitar um pouco.
Enquanto a colocávamos na maca a médica olhou pra mim e perguntou:
- Vocês tem a palavra mágica?
- Sim, mas ela não chegou nem perto de mencioná-la.
- Tá bom então.

Novo adendo, agora sobre a palavra mágica. Uma das orientações que recebemos foi ter uma palavra mágica, uma espécie de senha para a Pri usar quando estivesse no limite da dor. Como ela estaria meio fora de si (ou na partolândia, de forma mais poética) durante o trabalho de parto, os pedidos de anestesia, cesárea e termos como “não aguento mais”, “tira o bebê daqui” e coisas do gênero, deveriam ser ignorados, a menos que ela mostrasse consciência e dissesse a palavra mágica. A nossa era “esternocleidomastóideo”. Antes que você pense que foi sacanagem da minha parte combinar um palavrão desses, saiba que é parte de uma piada interna entre nós... e a Pri conhece muito bem o termo, pois trata-se de um músculo do corpo humano.

Pra falar verdade, nessa hora eu me senti muito mal. Minha esposa estava lá, passando por uma das piores dores que existe e eu não atendia aos seus pedidos de acabar logo com aquilo. Me senti um sádico extremamente cruel. Mas esse era o combinado e se já sou muito racional normalmente, imagine naquela situação extrema em que me encontrava.

A Pri não ficou muito tempo na maca. Logo virou de lado e vomitou. O que não caiu no chão foi em cima de mim mesmo. Providenciaram outra bela roupa cor de laranja pra mim e fui me limpar enquanto a Pri tomava um banho tirar a “nhaca”.

Tão logo terminei, fui chamado pela mulherada que nos atendia para uma conversa fora da sala. A Dra Carolina tomou a palavra:
- Ela não falou mesmo a palavra mágica?
- Não. Não sei se porque não quis ou porque não lembra mais.
- Nós achamos que ela está no limite. Recomendamos que receba anestesia – disse a Paula, com concordância da Lari.
- Eu acho que é o que ela precisa. Descansar um pouco pra poder voltar com tudo pra reta final.

Não tive nem o que pensar. Apesar de só ter visto a enfermeira uma vez durante o pré-natal e ter conhecido a médica naquele dia, eu confiava totalmente na equipe do Coletivo Nascer.
- Confio em vocês. Se é a recomendação, eu concordo. Na verdade, estou me sentindo mal por não tirar essa dor dela. Pareço um marido malvado.
- Não se sinta assim, você está cumprindo muito bem o seu papel. – Não me lembro quem me disse isso.

Feliz pelo elogio e por poder dar a notícia pra Pri, voltei pra sala. Passou algum tempo fomos para uma sala de cirurgia.
Me senti em um episódio de Grey’s Anatomy. Aquela sala com a luzona, equipamentos por todo lado, carrinho cheio de remédios, gases e por aí vai.

Mas também caí na real (na medida do possível para um homem) de como é a experiência do parto para a maioria das mulheres. Na sala também tinha o equipamento pra fórceps, aquele apoio para manter as pernas abertas e levantadas e, claro um bisturi. Ou seja, 99% de quem passa por aquela sala vai passar por uma cesárea ou por uma episiotomia (corte no perínio pra “aumentar a passagem”, se é que você me entende). Sem mencionar a Manobra de Kristeller, a qual já vi ser usada até mesmo em cesárea... em uma propaganda de empresa de filmagem! O médico também deu tapinhas na bunda do bebê enquanto o segurava de cabeça pra baixo, pra completar a vergonha alheia.
A manobra consiste em usar o braço sobre a barriga da mulher para empurrar o bebê pra fora. Muitos dirão que é uma “ajuda” para o pequeno, mas na verdade se trata de violência obstétrica mesmo, reconhecido pela OMS, Unicef e Ministério da Saúde.
Pra saber mais sobre a terrível realidade do parto na Brasil, recomendo o documentário “O renascimento do parto” no Netflix.

Rapidamente toda nossa equipe estava na sala, inclusive a carinhosa Dra Stefanie, pediatra que já que estava conosco há algum tempo, e o calmo Dr Fabio, anestesista, que acabava de se juntar à equipe. Uma enfermeira do hospital também estava lá.

Ele conversou conosco, explicou detalhadamente o que faria e informou que a anestesia seria forte o suficiente pra ela não sentir dor e descansar por uma ou duas horas, mas não tão forte, pro parto deixar de evoluir. Ela continuaria tendo controle sobre o corpo, para poder se movimentar, ajudar na descida do bebê e a empurrar quando fosse a hora.

Todos de máscara. Todo o rigor cirúrgico para fazer o procedimento (de novo, me senti no Grey’s Anatomy) e logo a Pri estava descansando, apesar do processo ter sido um pouco mais lento do que eu imaginava. Ela chegou até a dormir enquanto um novo cardiotoco era feito. Fiquei o tempo todo de olho nos batimentos cardíacos do André. Felizmente, sempre dentro da faixa esperada.

Aproveitei o cochilo da Pri e fui atrás de um banheiro. Me recomendaram a área de conforto médico. Pelas minhas experiências profissionais anteriores eu sabia do que se tratava. Um espaço onde os médicos ficam entre suas cirurgias para relaxar e se alimentar “na faixa”.

Cumpri minha necessidade fisiológica, olhei ao redor e peguei um café. Alguns médicos passaram por lá, a mulher do restaurante também e não falaram nada. Resolvi arriscar e pegar um suco. Nenhuma represália. Perdi a vergonha e enchi um prato com os pãezinhos do café da tarde que era servido. Já era mais de 17h e eu estava só com o café da manhã e algumas garfadas no almoço da Pri da sala de parto.

Voltei pra sala cirúrgica e lá estava minha esposa sentada sobre uma bola de pilates, com uma cara de quem tinha dormido uma noite toda, tão tranquilo era seu semblante.

A anestesia é ótima, mas retarda o trabalho de parto. Muitos desejados partos normais viram cesáreas porque a equipe não tem paciência de esperar o corpo da mulher voltar ao ritmo anterior. Mesmo com a administração de ocitocina para ajudar.

A Pri precisou da ocitocina, conforme esperado, mas ela tinha certa liberdade, apesar do “cachorrinho” que carregava consigo. Ela andou pela sala, fez afundos, dançou, deitou na bola... tudo para ajudar o André a percorrer seu tortuoso caminho. Com isso o tempo foi passando.

A essa altura a equipe já fora trocada. Chegaram a delicada Dra. Luisa, obstetra, a tranquila Enf. Obstetriz Gabrielle e o empático Dr. Rafael, anestesista. Pai há cerca de 6 meses, ele era o único que sabia pelo que EU estava passando naquele momento. A Lari e a Stefanie, heroínas da resistência continuavam conosco.

Nesse momento eu também entendi outra queixa das mulheres sobre o parto, a falta de noção de alguns profissionais. A todo instante uma enfermeira do hospital entrava de forma abrupta na sala, acendia a luz desnecessariamente (ficamos o tempo todo numa penumbra, conforme preferência da Pri) e falava alto.

A troca de turno foi o ápice. Uma enfermeira já estava lá dentro e outra entrou. Perguntou se era cesárea (parece que esse é o procedimento padrão, né?) e ficou batendo papo com a colega. A Pri, eu e toda a equipe olhou feio, elas se tocaram e saíram. Imagino o quanto devem ficar bravas com alguém de fora tomando o “lugar delas”, mas azar o delas, não é mesmo?

Lá pelas 19h o Rafael aplicou mais um pouco de anestesia (ou analgesia... sei lá), visto que as dores voltaram. O efeito não foi o esperado e ele optou por passar o cateter de novo para melhorar a posição do mesmo. E lá vamos nós para a “cirurgia” de novo. Máscaras, luvas, agulhas... até música clássica teve (fazia parte da playlist que rolou o tempo todo). Era ou não era pra se sentir num episódio de série? Até o médico se sentiu assim. Divagações a parte, a Pri continuava firme, agarrada no meu braço e sem poder se mexer.

Novo cardiotoco, Pri dormindo e eu doido pra atender ao chamado da natureza outra vez. A equipe também sugeriu que eu descansasse. O “fim estava próximo” (apocalíptico, não?) e a Pri precisaria da minha ajuda.

Subi no conforto médico e fui pra uma salinha com uma enorme TV na qual passava um jogo da NFL. Apesar de adorar futebol americano, abaixei o volume e tentei dormir. Devo ter cochilado alguns minutos, mas passei a maior parte do tempo consciente. Pelo menos pude relaxar um pouco.

A essa altura, o parto não era mais segredo na minha família. Mesmo não tendo comunicado que estávamos no hospital, para evitar que a torcida do Corinthians fosse pra lá, a ausência de nossas respostas no grupo do Whats foi suficiente para a dedução deles. Os pais da Pri nós avisamos pois precisariam viajar. Eles já tinham chegado, mas solenemente ignorei as perguntas da sogra.

Vi parte da equipe jantando e me juntei a eles para “filar a boia”. A conversa foi muito boa e já estava levantando pra voltar quando eles me sugeriram que descansasse mais. O efeito da anestesia seria mais longo dessa vez.

Inclinei mais ainda o sofá da salinha, puxei um cobertor e quando fechei os olhos... toca meu celular. Era o número da doula, mas a voz era da Pri:
- Vem! Estou com dilatação total.

Voltei pro centro cirúrgico e lá estava ela plena novamente. Sentou-se numa banqueta, eu sentei atrás dela para servir de apoio e voltamos aos trabalhos. Era 21h30 e a frase mais falada era “tá chegando”.

A Pri voltou a reclamar de dor, mas insistíamos que estava acabando. Já era possível ver o cabelo dele, apesar de ainda estar um pouco longe.

Ela mudou de posição algumas vezes, arranhou meu braço, me olhou nos olhos, apoio a cabeça dela na minha, largou tudo pra andar sozinha. Eu já não sabia mais o que fazer para ajudá-la.


A Dra Stefanie preparou o berço aquecido, que apitava a cada vez que chegava na temperatura adequada. O aparelho que dosava a ocitocina também apitava de tempos em tempos. A playlist começava a ter cada vez mais propagandas. O Rafael, a Stefanie e eu nos revezávamos nas tarefas de silenciar barulhos não desejados e tirar algumas fotos, enquanto a Luisa e a Gabi, sentadas no chão, com toda a doçura do mundo monitoravam nossos protagonistas com um espelho e uma lanterninha. A Lari também continuou ao nosso lado, orientando a Pri o tempo todo. De tempos em tempos, aparecia o sonar pra medir os batimentos do André. Apareceu um 90 lá e me assustei, mas logo ele voltou pros 120 e ninguém pareceu se preocupar.


Aqui cabe outra observação. Já vi diversas vezes o parto ser tratado como uma coisa que deve ser estéril. Cheguei a ver o absurdo de um médico mandar a mãe calar a boca e tirar a mão do filho que tinha acabado de nascer pra não “contaminar”. O “protocolo” é correr cortar o cordão, limpar o bebê todo e fazer logo o exame pediátrico. A gente ficou no chão, pôs a mão em tudo que foi lugar e segurou o André logo que ele nasceu. Ele mal foi limpo, ficou mais de uma hora conosco com o cordão ainda ligado e não tomou banho por 24h. Ele parece bem saudável até agora.

A meia-noite se aproximava e eu comecei a ficar incomodado com a falta de evolução. A Pri estava exausta e já não era mais possível ver os cabelos do André. Mas a mensagem que nos passavam era:
- A cada contração o André está mais perto. Conversa com ele, fala que ele já pode vir – Mudança de estratégia de novo, do “sai logo daí” pra “pode vir meu bem” kkkk

Discretamente perguntei sobre a falta de evolução pra Stefanie, mas ela me disse que era assim mesmo, que estava evoluindo sim.

De volta para a banqueta, as coisas melhoraram. Conseguíamos ver os cabelos de novo e a cada contração os incentivos aumentavam. Até o Dr Rafael, que a rigor não precisava ficar ali o tempo todo, não saiu da sala e ajudou a orientar a Pri sobre o que fazer. A Pri já não sabia mais quando tinha contrações. A Dra Luisa e a Enf Gabrielle é quem, com suas delicadas mãos sobre sua barriga, diziam quando era hora de ajudar o André a descer.

O dia 16 chegou e finalmente o bebê coroou. Na meia hora seguinte, tudo que eu fazia era olhar pelo espelho cada vez mais André aparecendo e cochichar no ouvido da Pri:
- Eu te amo. Ele tá chegando. Você é ótima.

Finalmente, a cabeça passou por completo. A Dra Luisa a segurou. Mais alguns empurrõezinhos e o corpo passou. Alguém da equipe do hospital falou:
- Hora do nascimento, 0h35 – 22 horas de trabalho de parto, 16 horas de fase ativa.

1ª sensação: alívio. A mulher que eu amo não estava mais sofrendo com as dores.
2ª sensação: preocupação. O André não se mexe nem chora. Falei pra mim mesmo que era normal, já tínhamos lido e visto isso muitas vezes.

Isso tudo pensei no infinitesimal período entre o corpo passar por completo e a Luisa colocá-lo de barriga pra baixo. Bastou uma ou duas estimulações (da Gabi, eu acho) pra ele chorar duas ou três vezes. Não foi nenhum escândalo. Só um sinal de “estou vivo, podem respirar”.

3ª sensação: alívio de novo. Está tudo bem.

Aquela coisa pequena (mas nem tanto) de cabelos escuros foi imediatamente pro colo da Pri e ficou em silêncio. Olhou pra ela, virou seus olhos azuis escuros pra mim, voltou a olhar pra ela e ficamos naquela paz trocando olhares. Eu juro que o tempo e o mundo pararam naquele instante. Eu até olhei pra trás pra ver se ele não estava olhando pra luz voltada pro teto que havia atrás de mim (estávamos na penumbra, lembra?). Alguém disse:

- Ele está olhando pra você mesmo.


4ª sensação: não existem palavras. Talvez a melhor definição foi dita pelo Dr Rafael enquanto batia no meu ombro (eu disse que ele era empático):
- É muito louco, né cara?

Tudo o que eu repetia enquanto chorava era:
- Ele nasceu Pri. Ele é lindo. O André chegou. Eu amo vocês.

A Dra Stefanie se aproximou, sem tirá-lo do colo da Pri, limpou delicadamente seu rostinho e cabeça, apenas o suficiente para ele não ficar incomodado. Ela nos deixou curtir mais alguns momentos enquanto passava um pito na equipe do hospital que insistia em querer saber o APGAR do bebê:
- Vamos esperar os 5 minutos?

A Pri deitou na maca, deu de mamar e tivemos nossa “golden hour”. Sem ninguém nos incomodar.


Fotinhos tiradas, abraços dados, parabéns transmitidos... Liguei pros meus pais pra dar a notícia, a Pri fez o mesmo com os dela. Era hora dos procedimentos.

Como não tinha tesoura, cortei o cordão umbilical com um bisturi mesmo, sob supervisão médica claro. Perdi a chance da vida de me sentir mais ainda num episódio de Grey’s Anatomy e dizer “ten blade, please”. Mas tudo bem... havia coisas mais importantes no momento. Já ouvi muita gente dizer que cortar o cordão é “mágico”. Foi bem legal, mas como já tinha passado um bom tempo do parto propriamente dito, não foi tão emocionante quanto dizem.

Acompanhei todo o exame pediátrico, detalhadamente explicado pela Stefanie. Enquanto isso, a Dra Luisa descrevia calmamente os próximos passos pra Pri. Os pontos que seriam dados, o remédio que ela havia prescrito, o que ela podia ou não fazer nos próximos dias.

Enquanto ela dava os pontos, pensei no quanto esses profissionais precisam ser focados e superar o cansaço. Depois de tantas horas, ela ainda tinha um trabalho superdelicado e que exigia muita precisão a fazer. Sem contar toda a papelada que a equipe teve que preencher.

Bebê com a mãe de novo, recebemos uma pequena má notícia. Como o André tinha 3,910 Kg precisaria ir pro berçário, pois o tal do protocolo do hospital exigia que bebês com mais de 3,900 Kg assim o fizessem por pelo menos 2 horas. Tudo bem, era uma ida sem motivo de preocupação.

Mais algumas fotinhos, demais familiares avisados e o nosso “dream team” foi se despedindo. Ficamos algum tempo só nós 3. Logo chegou alguém do hospital, colocou as pulseiras no André, tirou o carimbo do seu pezinho e me marcou. Fui junto com eles pro berçário. A Pri seria levada pro quarto. Já era quase 3h da manhã.




Encontrei os pais e irmãos da Pri nos aguardando no berçário. Conversamos, trocamos abraços e acompanhamos a distância o exame. A única novidade era ótima, o André tinha 52 cm.
Eles subiram pra ficar com a Pri e eu fiquei lá. Me perguntaram sobre o banho, eu disse para não dar. Por pelo menos 24h ele deveria ficar com o vérnix. O único colega de berçário do André logo saiu e ele ficou lá, quieto e sozinho.

O sono começou a bater. Já eram 24h sem dormir. Mandei algumas mensagens pra outros familiares e amigos. Me surpreendi com a quantidade de gente que respondeu no meio da madrugada.
Ainda tive que encontrar forças para debater sobre etiquetas de identificação das roupas e quando e onde a vacina de Hepatite B e a vitamina K deveriam ser aplicadas. Mas tudo se resolveu. Devem ter visto minha cara de exausto... alguém privado de sono pode ficar bem agressivo.

Lá pelas 5h30 subimos pro quarto. A Pri pôde pegá-lo novamente e mostrar uma doçura que eu nunca tinha visto em 15 anos que estamos juntos. Não que ela não seja doce, mas aquela cena foi especial.
Os pais dela foram embora, eu tomei um banho e ele ficou lá, quietinho e bonzinho com ela e no berço.

6h30 da manhã... praticamente 26 horas depois que tudo começou, o primeiro dia do resto das nossas vidas chegava ao fim, com um novo, lindo, saudável e fofo personagem entre nós.


Se você chegou até aqui, deu uma grande demonstração de carinho pra gente. Obrigado pela paciência de ter lido tudo isso.

Um abraço meu e da Pri
Um beijo do André

Comentários

  1. Maravilhos, emocionante parabéns 💙💙🍼🍼

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  2. Realmente foi um evento extraordinário, realizado com amor e dedicação, graças ao excelente planejamento que vocês fizeram e executaram com muita sabedoria. Vocês me deixam muito orgulho por tamanha dedicação, que com certeza absoluta irão aplicar no desenvolvimento do André. Isso me faz muito feliz e me transmite uma confiança de que vocês fizeram e farão sempre o melhor pro André. Que Deus os abençoe e proteja sempre. Amo muito vocês!!!

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  3. Que texto maravilhoso, tenho tem 2 filhos,uma de 16 anos e um de 6 anos.... mas assuntos, fotos e vídeos de partos sempre me emcionam... Parabéns, qie Deus abençoe grandemente o André e vcs papais !!!!!!!

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    1. Obrigado pelo carinho Erica.
      Que Deus abençoe vc e sua família também

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  4. Lindo de viver. Por mais pais que tenham empatia e amor. 😊 E por pessoas que se preparem para o parto como se preparam para uma festa de casamento.

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    1. Obrigado Thalita
      Como dizem, para mudar o mundo precisamos mudar a forma como as crianças vem ao mundo. Tentamos fazer nossa parte

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  5. Que lindo! Parabéns pela vivência e pelo texto!! Vou mostrar ao meu marido (pai de 3 já, mas vivendo um novo processo de preparo pro parto agora comigo, nosso bebê e com o Coletivo).
    Abraço!

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    1. Obrigado Ligia.
      Confie no Coletivo... vai se ótimo. Espero q seu marido tb goste do texto.
      Abs

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  6. Priscila e Felipe,
    Parabéns pela força, dedicação e coragem. Vocês venceram! Por um acaso estava pesquisando e achei seu blog, lembrei de vocês e fiquei curiosa, li do início ao fim e me emocionei. Nos vimos algumas vezes (na MF). Que Deus continue a abençoar e zelar por essa linda família.
    Um abraço.

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    1. Obrigado Gleici
      Q ele abençoe a todos nós

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    2. Gleici, desculpe, mas a Pri e eu não conseguimos nos lembrar quem é vc e o q é MF rsrsra.
      Nos ajude kkkk

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    3. Medicina fetal rsrs não foi muito agradável, mas fiquei mto feliz em ver a história de vocês e saber o desfecho. Parabéns!

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    4. Nossa! É claro... vc nos atendeu várias vzs. Desculpe a falta de memória.
      Com vc sempre foi agradável. O problema era com a instituição HSL e o convênio... nada pessoal.
      E como vc chegou até esse meu relato?

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    5. Pra falar a verdade, um dia estava atendendo e me veio vocês na cabeça. Fiquei curiosa em saber se o bebê nasceu e se estava tudo bem, acabei pesquisando e achei o blog, não esqueci o nome de vocês, foi mais fácil rs

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    6. Ah... q legal.
      Obrigado prla lembrança

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Que belo texto... obrigado por contar um pouco de toda a experiência e parabéns por ter aguentado firme! :D

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