Sapatos, graxa e a relação de pai e filho

Resultado de imagem para engraxar sapatosMotivado pelo casamento de uma prima da Pri, resolvi engraxar meus sapatos. Acho que há mais de um ano que eu não fazia isso. Não à toa precisei desenterrar a escova de dentes velha, a latinha de Nugget e o paninho sujo do fundo do baú. Em tempos de sapatênis e dress codes cada vez menos rígidos nas empresas, creio que essa é uma atividade cada vez mais rara. Pelo menos desde o Tiro de Guerra que não escuto alguém falar “graxa” e “sapato” na mesma frase.


Sapatos espalhados no chão da varanda, latinha aberta e escova na mão, tão logo comecei minha tarefa do dia e me lembrei de quantas vezes fiz isso com os sapatos do meu pai. A diferença é que ele fazia isso na bancada do quintal, onde me colocava sentado para ajudá-lo.

Lembro de como ele falava com orgulho sobre o cromo alemão marrom que tinha comprado há uns 15 anos e que hoje custava uma pequena fortuna (hiperinflação, mudanças de moeda… os mais velhos devem se lembrar disso).

Também lembro da alegria que eu sentia por poder ajudar meu primeiro herói, de como ele me ensinava a prestar atenção para ver se as curvas estavam tão bem engraxadas quanto as partes mais planas e do barulho engraçado que a escova de lustrar fazia. Alguém que lustrava os sapatos uma vês por mês não admitiria usar apenas um paninho sujo.

Outra coisa que não me sai da memória é a história de que “antigamente, as crianças que engraxavam sapatos na rua usavam pano de guarda-chuva”. Qualquer dia acho que vou pegar um guarda-chuva velho e testar essa teoria…. kkkk

Quando fiz SENAI (vocês já perceberam que gosto de falar isso, né?), precisávamos manter o sapato de segurança bem cuidado. Para alguns, engraxar era uma tarefa inédita. Um dos poucos que sabia o que fazer disse que quando era mais novo engraxava os sapatos do pai porque ganhava mais dinheiro pro lanche da escola. Nunca entendi muito bem porque cobrar para ajudar o pai, mas vida que segue.

Alguns anos depois, este que vos escreve teve que cumprir o serviço militar obrigatório. Como eu trabalhava, fazia faculdade e estava começando a namorar a Pri, precisava decidir entre dormir e manter os coturnos brilhando. Obvia e fisiologicamente, eu escolhia a primeira opção. Quem engraxava meus coturnos? Meu pai, claro! Era ele também quem levava minhas marmitas nos dias de plantão. No dia seguinte, lá estava ele de novo com uma mochila e minha troca de roupa para ir direto para o trabalho.

Quem tem o prazer de conhecer o “Sr Pedro” sabe que ele é um contador de causos de primeira, mas nunca foi muito de ensinar com palavras. Os sermões costumavam vir da minha mãe. Entretanto, conforme fui entrando na vida adulta e comecei a me ver fazendo as coisas do mesmo jeito que meu pai fazia (furar paredes, montar móveis, engraxar sapatos) enxergo o quanto aprendi por meio de seus atos.

Em uma simples tarefa como essa com os calçados ficou claro pra mim importância de cuidar do que é meu, prestar atenção aos detalhes, ajudar quem a gente ama e, principalmente, transmitir tudo isso quando eu tiver um filho.

Alguém aí vai pedir pro filho engraxar seus sapatos essa semana?

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